GUIA AFETIVO DA PERIFERIA (Faustini)

Procedimentos aprendidos na estação do Engenho de Dentro

Como a viagem do centro de Santa Cruz até o centro do Rio se tornou por diversas razões cotidiana, comecei a criar proce­dimentos que me fizessem esquecer como era longa. Quando fazia o trajeto de trem, dividia a viagem em duas partes para não ser tomado pelo tédio da repetição. Da estação de Santa Cruz até a de Engenho de Dentro, era um mundo. Do Engenho de Dentro até a Central do Brasil, era outra galáxia. Tinha o hábito de descer sempre na estação do Engenho de Dentro para trocar de ramal. Esperava o próximo trem em direção à Central. Essa troca era apropriada para a sensação de fic­ção que buscava com a intenção de disputar com o cansaço do corpo. A estação inteira era cheia de ferros redondos que naquela época eu intuía ser o que tinha escutado sobre art nouveau. Ali, sentia-me confiante. Era a confirmação de que, domingo a domingo, mesmo sem dinheiro, fazia mais sentido andar pela rua do que ficar em casa. Na espera do trem, obser­vava as pessoas e criava pequenas histórias para cada uma, era meu território particular de invenção. [...] eu mergulhava num vagão qualquer e ao longo das estações seguintes observava, pelas janelas do trem, como casas ficavam diferentes até o centro do Rio. Era um outro procedimento em minha busca de criar histórias para diminuir o cansaço. O prazer de ver o céu brilhar pela janela nas casas diminuía também o calor do vagão, mas era interrompido pelas repetidas vozes do vendedor de Prestobarba. Devido à falta de grana e à presença constante de todo tipo de vende­dor e produtos em toda parte, por várias vezes prestei muita atenção no jeito de venderem. Cogitava trabalhar assim. Falar dava dinheiro, escrever, não. Mesmo suando e com o corpo cansado como o meu, a voz desses vendedores era saltitante e disputava com bravura o barulho do atrito dos trilhos com as rodas do trem. Eu que me sentia orgulhoso por ser cha­mado de guerreiro, me rendia à coragem desses arautos terri­toriais. Meu projeto de escrever foi bombardeado pelo projeto da fala como instrumento de sobrevivência. Esses trabalhos sempre estiveram por perto. Por indicação de uma vizinha faladeira, uma vez, ainda garoto, quase me tornei vendedor de lençol e urso de pelúcia de porta em porta na região da Leopoldina. No desejado conforto da van, que sempre pegava quando tinha algum dinheiro, pensando sempre em manter esta forma de me transportar, abandonei qualquer leitura, pensamento e observação de janela, para ouvir o cara que trabalhava abrindo e fechando a porta da van falar o trajeto ao longo das paradas na Avenida Brasil. Gostava, em especial, da voz anasalada de um deles, que anunciava o roteiro SANTA CRUZ-CASTELO imitando voz de buzina. Perceber falas, tons, vozes e frases ditas foi ocupando o lugar do procedimento de criar histórias. As oportunidades de trampos com a voz foram aparecendo: animador de festa, Papai Noel no Carrefour de São Gonçalo, Urso Fred no Shopping Madureira e toda sorte de subempregos que me serviam para ter alguma grana. [...] A voz foi ficando cada vez mais presente, a máquina de escrever encostada num canto. A bússola interna aceitava o sentido, mas não a direção. O corpo se manteve cansado nas viagens de van financiadas pelas animações de festa que passei a fazer fantasiado de Peter Pan, nas quais executava alguns trejeitos de voz inspirados no vendedor de amendoim Nakaiama, com quem cheguei a conversar um dia na estação do Engenho de Dentro.

Marcus Vinícius Faustini

“Guia Afetivo da Periferia”. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.





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